domingo, 10 de abril de 2011

Transtorno bipolar na infância e na adolescência é difícil de diagnosticar


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Fases de euforia seguidas de depressão recorrente. O transtorno bipolar do humor é um quadro que impacta o indivíduo e seu círculo social e se caracteriza pela presença de instabilidade ou oscilação do humor. O diagnóstico do quadro é complicado em adultos, pois uma das fases – depressão ou a euforia – pode ser dominante, o que induz ao erro os profissionais de saúde envolvidos no tratamento desses indivíduos. Em crianças e adolescentes o desafio pode ser ainda maior.

“O transtorno bipolar (TB) em crianças e adolescentes, normalmente, está associado a outras comorbidades. Ele pode se instalar paralelamente a um transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, transtornos de conduta, transtornos ansiosos ou mesmo com transtornos alimentares”, explica Miguel Boarati, pesquisador do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq/HCUSP) e autor do livro Transtorno bipolar na infância e adolescência – Aspectos clínicos e comorbidades, escrito em conjunto com Lee Fu-I e publicado pela Editora Artmed.
O tratamento nesses casos precisa ser muito específico, pois os transtornos associados podem esconder o TB. “O primeiro problema a ser resolvido nesses indivíduos é o transtorno bipolar, pois a partir do controle deste é que se sabe a extensão da comorbidade”, diz o especialista.
Diferentemente dos adultos, o TB na infância e na adolescência esbarra nos problemas da idade: de um lado as crianças, muitas vezes, não conseguem descrever o que sentem. Já na adolescência, uma idade crítica por natureza, o transtorno se confunde com os dramas da fase e pode ser agravado por fatores como a convivência social com indivíduos desajustados.
Idades diferentes, fases diferentes
“As crianças não sabem falar sobre os próprios sentimentos, o que pode dificultar, para os pais e para os profissionais que as acompanham, a identificação imediata da doença. Nas fases de euforia fica ainda mais difícil. O que vai denotar o transtorno, muitas vezes, é quando nota-se a apatia durante as brincadeiras ou algum desequilíbrio alimentar”, aponta Boarati.
O pesquisador indica ainda que a “ciclagem” – alteração entre as fases – nas crianças é muito rápida. “A criança pode estar apática durante a manhã e logo depois eufórica, brincando, correndo. Isso confunde quem observa e dificulta a procura por ajuda especializada. Entretanto, quando se tem ideia de que pode ser um transtorno, acaba sendo mais fácil diagnosticar, pois fica nítida essa alteração”, diz.
Na adolescência, entretanto, a coisa se complica. “Nos adolescentes, desafiar as regras ou se comportar de forma arriscada – indícios de transtornos de conduta ou comportamento de risco – é visto como parte daquela fase da vida”, afirma o especialista.
Por conta dessa impulsividade e agressividade extremada, esses adolescentes bipolares podem acabar sendo isolados pelos pares – o inverso do que acontece com as crianças bipolares, que optam por se isolar. Esse isolamento social pode ser um fator complicador, pois esse indivíduo pode acabar procurando refúgio em círculos sociais (turmas de amigos) mais desajustados.
“Os adolescentes com esse comportamento ‘transgressor’ acabam se solidarizando. No geral, isso é ruim, pois os membros do grupo podem acabar compartilhando e reforçando os comportamentos de risco uns dos outros, como o abuso de álcool e outras drogas, ou mesmo o comportamento violento e antissocial”, explica Boarati.
Adesão ao tratamento pode ficar comprometida nos adolescentes
Na adolescência, a independência e proatividade também são mais salientes. Isso quer dizer que a adesão ao tratamento para o transtorno não depende apenas dos pais. “As crianças mais novas são levadas pelos pais, que acompanham de perto a evolução. Nos adolescentes, isso se complica, pois os pais os deixam mais soltos. Se um adolescente resolver faltar à sessão ou interromper o tratamento, os pais podem não conseguir valer a autoridade e forçá-los a voltar”, afirma o especialista.
Por isso, os pais devem ficar mais atentos nas fases iniciais do tratamento, pois a continuidade na intervenção é mais fácil quando esses indivíduos já estão mais estáveis. “Lembrando que o transtorno bipolar do humor não tem cura, mas pode haver remissão do quadro. A condição pode ser estabilizada, mas isso não exclui a volta de novas oscilações. O acompanhamento deve ser constante e o indivíduo tem de colaborar, para seu próprio bem. Ele tem de estar atento à sua própria condição”.
Vida acadêmica é um indicador importante
Para os pais, fica a dica: acompanhar o histórico escolar dos filhos – não somente as notas, mas as alterações de comportamento, coisa que os professores podem auxiliar – é o melhor indicador de transtornos mentais que possam vir a se instalar, especialmente o TB.
“O ambiente escolar é um local fora do convívio familiar, e acompanhar a evolução dos filhos nesse ambiente é importantíssimo: as alterações de comportamento observados na escola podem dizer muito sobre a saúde mental das crianças. Se as notas caem repentinamente, a criança não se concentra ou mesmo desaprende certas coisas, isso pode ser indicativo de alguma alteração”, diz Boarati. “Nesses casos é importante uma avaliação de um profissional de saúde mental, de preferência um especialista em crianças e adolescentes, pois como vemos, as especificidades da idade são pontos-chave para um bom diagnóstico e um tratamento eficaz para as condições que possam estar se desenvolvendo”, finaliza.
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por Enio Rodrigo

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