sexta-feira, 25 de março de 2011

GUERRA DOS SEXOS


Tobi Corney/Getty
Embora homens e mulheres acreditem viver em mundos diferentes, somos mais parecidos do que se pensava. Os últimos estudos demonstram que as diferenças de comportamento entre homem e mulher são muito mais de origem cultural do que genética.

POR LUIS PELLEGRINI
Percebi que algo estava mudando radicalmente nas estruturas tradicionais da nossa sociedade patriarcal em meados da década de 70, quando assumi pela primeira vez a direção de PLANETA. Para dar conta do recado, comecei a freqüentar todos os eventos relacionados aos temas principais da revista naquela época: ecologia, pensamento holístico, psicologias de vanguarda, medicinas alternativas, parapsicologia, psicotrônica, etc.
Primeira constatação: nos seminários, congressos, conferências e workshops que passei a freqüentar, a maioria do público era regularmente constituída de mulheres, na proporção média de duas mulheres para um homem. E rapidamente concluí que, se aqueles eram os temas que iriam definir o futuro da nossa civilização – como realmente está acontecendo –, muito mais mulheres do que homens estavam interessadas em se preparar para esse futuro. Desde então, tudo caminhou a passos de gigante.
Mas, como os processos de transformação dos comportamentos ligados à psique coletiva são muito mais lentos do que os processos ligados à ciência, que é uma atividade predominantemente mental, certos padrões antigos ainda persistem. Entre eles, a velha rivalidade entre os sexos. A velha relação de amor-ódio que, há milênios, separa a sociedade dos homens da das mulheres.
Lembro-me das festas familiares de outrora, nas quais o ritual era sempre o mesmo: um casal chegava e cumprimentava os demais convidados. Passo seguinte, a conversação se dividia: as mulheres se reuniam num canto do salão para falar dos filhos, das empregadas, dos últimos gritos da moda e do quanto é difícil combater a celulite. Num outro canto, os homens discutiam futebol, trabalho e política. Até hoje, para as faixas etárias mais idosas, as coisas continuam dessa maneira.
Se baixarmos a faixa etária para os 30 anos, veremos que também nela a separação entre os sexos é evidente: sobretudo nos países desenvol- vidos, balzaquianos de am-bos os sexos têm crescente dificuldade para casar e, quando o fazem, têm cada vez menos filhos.
Na infância e adolescência esses padrões se repetem. Meninos criam clubes do Bolinha; meninas, clubes da Luluzinha. A seguir, estimulados pelas testosteronas e outros hormônios, os adolescentes se aproximam na tentativa de viver os primeiros romances. Mas, fora desse contexto, a separação permanece: rapazes de um lado, moças do outro.
Diferente do que acontecia há apenas 20 ou 30 anos, nos maravilhosos tempos da revolução hippie e do movimento feminista, quando éramos felizes e não sabíamos, hoje são poucos os que ainda ousam afirmar que existe igualdade entre os sexos. Se olharmos ao redor, iremos verificar que homens e mulheres parecem viver em mundos distintos.
Todos estão mais à procura das diferenças que os separam do que das coincidên-cias que os unem. Basta lembrar o escândalo suscitado há poucos meses pelas declarações de Lawrence Summers, reitor de Harvard, a mais prestigiosa universidade norte-americana, ao sustentar que as mulheres são uma negação em ciências.
O paradoxo é que tais controvérsias persistam exatamente num momento em que a própria ciência chega a conclusões claramente diversas: as diferenças biológicas entre os dois sexos são inegáveis, mas não suficientes para condicionar visões opostas da realidade.
As diferenças entre o comportamento dos dois sexos constituiriam principalmente, se não unicamente, o resultado de condicionamentos socioculturais. Derivam de uma revolução contemporânea dos papéis sociais que está ocorrendo sobretudo no mundo do trabalho – no qual as mulheres se mostram cada vez mais combativas, concorrendo com os homens, muitos dos quais suportam mal essa concorrência –, e também no âmbito das responsabilidades familiares, no qual as mulheres estão cada vez menos disponíveis e os homens permanecem ausentes.
Foi no começo do século 20, com o advento da genética, que tiveram início as discussões científicas sobre as diferenças entre os dois sexos. Alguns cientistas afirmavam que os homens eram mais decididos e capazes porque possuíam o cromossomo Y, que as mulheres não possuem. No número de abril, no entanto, a revista científica Nature publicou conclusões quase opostas: o cromossomo X, característico do sexo feminino, possui muitos genes a mais do que o Y. É, portanto, mais rico e complexo.
Claro, isso ainda não prova nada em termos da superioridade de um ou do outro. Mas, se juntarmos esse dado a outros recentemente obtidos por investigadores da psicologia comportamental, chegaremos a conclusões que certamente farão muitos homens ficar de orelhas em pé.
Luc Beziat/Getty
Condicionamentos culturais determinam as diferenças.
Por exemplo, até há pouco os pesquisadores consideravam que os homens manifestavam uma atividade sexual mais intensa do que as mulheres por conta de uma hipotética “missão” biológica: o homem tendo sido, por milhões de anos, mais predador e promíscuo; a mulher, mais pacata e fiel por depender mais das relações sociais.
Terri Fischer, professor de psicologia da Universidade de Ohio (EUA), porém, descobriu que as coisas não são bem assim. Reunindo grupos de homens e de mulheres, ele submeteu os integrantes desses grupos a um questionário sobre a sua vida sexual. Algumas das perguntas induziam os participantes a acreditar que estavam ligados a uma máquina da verdade, a qual reagiria se a resposta fosse falsa.
Fischer descobriu que, sem a máquina, os homens se atribuíam em média quatro parceiras sexuais e as mulheres 2,6 parceiros. Mas, coligados à pretensa máquina, os homens desciam a 3,7 e as mulheres subiam a 4,4 parceiros! A causa dessas diferenças? Para Fischer, elas residem somente nas expectativas sociais: os homens temem ser considerados pouco viris e as mulheres, demasiado “fáceis”.
Também não se sustentam as velhas teorias sobre o sentimento do ciúme, que, por razões “biológicas”, seria diferente para homens e mulheres. Até há pouco, os psicólogos evolutivos afirmavam que as mulheres têm ciúme das traições afetivas porque temem perder a ajuda do parceiro na criação dos filhos, e que os homens têm ciúme das traições sexuais porque o terror deles (sempre do ponto de vista evolutivo) é desperdiçar sua energia criando filhos de outros homens.
Mas Cristine Harris, da Universidade da Califórnia (EUA), depois de dez anos de estudos sobre o ciúme, concluiu que as diferenças somente aparecem quando as perguntas são capciosas, feitas de maneira a influenciar as respostas.
Em outras culturas, como a chinesa, apenas 25% dos homens declaram ter ciúme das traições sexuais, sendo que 75% desses mesmos homens consideram que a infidelidade sexual e a infidelidade afetiva são igualmente ameaçadoras e desagradáveis.
Resultados análogos foram obtidos em relação a homens norte-americanos e europeus, levando os psicólogos a concluir que, para homens e mulheres, tanto faz se as relações extraconjugais sejam sexuais ou platônicas: em qualquer dos casos a infidelidade é motivo de ciúme.
É, porém, no âmbito das capacidades mentais que as velhas crenças estão mudando radicalmente. Atribuía-se ao homem, por exemplo, o domínio inquestionável das capacidades matemáticas. Até hoje, em alguns países europeus, os resultados es- tatísticos de exames vestibulares são citados para demonstrar a superioridade da mente masculina sobre a mente feminina na área das ciências exatas.
“Mas, como bem se sabe, o cérebro é muito vulnerável à sugestão e aos condicionamentos. Esse órgão é estimulado pelo encorajamento e pela motivação. Da mesma forma, nada mais eficaz do que o desencorajamento e a falta de incentivo para inibir as capacidades do cérebro”, afirma Catherine Vidal, neurobiologista do Instituto Pasteur de Paris, na França.
Durante séculos, ciências como a física, a engenharia, a astronomia e a química foram consideradas matérias “não adequadas” para as moças. Em vários países europeus, elas tiveram de esperar até a última década para superar numericamente os rapazes nos cursos de ciências exatas.
De uns tempos para cá, porém, em países como a Suécia e a Islândia, as moças regularmente obtêm melhores resultados que os rapazes nos exames de matemática e de física. Hoje, em 22 nações européias, nos testes de álgebra dos vestibulares para ingresso nas universidades, as moças se saem melhor que os rapazes!
Adri Berger/Getty
A partir dos anos 70, passou a ser voz corrente a crença de que as mulheres possuíam melhor capacidade lingüística e os homens eram mais hábeis nas questões que requerem inteligência espacial. As duas crenças, no entanto, estão desmoronando.
Um estudo feito na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, provou que um grande número de mulheres têm, sim, maior capacidade lingüística, mas pelo fato de utilizarem (11 mulheres dentre 19) os dois hemisférios cerebrais para certas operações intelectuais como o reconhecimento de vocábulos que fazem rima, enquanto os homens, para essas mesmas operações, utilizam apenas o hemisfério direito.
Esse mesmo estudo também demonstrou que homens e mulheres usam o cérebro exatamente da mesma maneira para fazer exercícios de ortografia e para escolher os vocábulos. Todas as pesquisas realizadas nos últimos dez anos mostram que a função da linguagem ativa do mesmo modo as regiões cerebrais masculinas e femininas.
Conclusão: praticamente não existe diferença entre a capacidade mental das mulheres e dos homens. Tudo leva a crer que, nesse sentido, o cérebro humano não é feminino nem masculino. É simplesmente neutro. A seleção natural parece não ter o menor interesse em favorecer um dos sexos em detrimento do outro.
OS TRÊS TRUQUES DA BRIGA CONSTRUTIVA
Se, na cabeça, homens e mulheres são iguais, onde então se localizam as diferenças que com tanta freqüência provocam atritos e brigas entre os casais? Segundo os especialistas, elas pouco têm a ver com os gastos excessivos em roupas ou com as sogras, como se acredita. As verdadeiras causas dos litígios estão no sexo e na necessidade de afeto.
Recente pesquisa conduzida por Dietrich Klausmann, médico psicólogo da Universidade de Hamburgo Eppendorf, na Alemanha, revela que a primeira causa é o sexo. Nas mulheres, depois do primeiro ano, o desejo sexual se atenua, mas nos homens ele permanece.
De outro lado, nos homens o que baixa é a disponibilidade para dar e receber afagos, para dialogar, para projetar a vida em comum. Essa é a verdade de fundo, mas raramente, quando discutem, homens e mulheres ousam colocar as verdadeiras cartas na mesa: o esfacelamento da vida erótica e afetiva e a perda de cumplicidade. Preferem projetar o problema sobre outras dissensões: as despesas, a sogra, a perda da tampinha do dentifrício, se a tampa do vaso sanitário deve permanecer aberta ou fechada...
John Gottman, psicólogo da Washington University, de Seattle (EUA), tem opinião parecida: “Em cerca de 80% dos casos, são as mulheres a levantar o problema. Elas notam primeiro a falta de comunicação com o parceiro, não se sentem compreendidas emotivamente, não se sentem amadas.
A briga, nesses casos, serve para obter atenção e conexão emotiva. É como se, brigando, a mulher gritasse ao companheiro: “Demonstre que você me ama!” Quanto ao marido, sentindo-se agredido, em vez de dar à mulher aquilo que ela pede, se retira ainda mais e pensa que se casou com uma insuportável encrenqueira.
A solução? Para ambos, em primeiro lugar, tomar consciência do sentido profundo das brigas de casal. E, a seguir, aprender que as discussões não devem durar mais de cinco minutos. Depois do que, tudo deve terminar num abraço, num sorriso e, se a hora é propícia, naquilo que se faz sob os lençóis...
Gottman, que é especialista em terapia de casais, afirma ser capaz de prever, a partir dos três primeiros minutos de uma briga, e com uma precisão de 94%, se um casal irá se divorciar ou não. Ele aconselha os três truques da “briga construtiva”:
1. Nunca começar uma discussão com um ataque de tipo global, como “Você é preguiçoso”, ou “Você é burra”, ou “Em casa você não ajuda em nada”. A primeira estocada deve ser suave, sem acusações globais: “Ontem você esqueceu de colocar o lixo para fora”, por exemplo.
2. Eliminar do vocabulário das brigas os vocábulos “sempre” e “nunca”.
3. Recordar o modelo matemático do cinco por um: para cada momento negativo, frase agressiva ou desagradável, acusação, pelo menos cinco afirmações positivas devem ser feitas. Menos que isso, o casamento corre o risco de naufragar.
Quem consegue brigar desse jeito pode fazê-lo sem maiores conseqüências: basta que no decurso da briga saiba rir, levar na brincadeira, lançar sinais de afeto, manter a conexão afetiva. Quanto aos homens, Gottman os aconselha a aceitar a influência das companheiras se desejam manter relações duráveis. “Devem aprender a dividir o poder e a aceitar os pedidos.”

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