quinta-feira, 1 de outubro de 2009

SENSEI: MESTRE

Existem cinco estados antes de alcançar a perfeição na via do Budô, perfeição que está mais além destes cinco estados. Na tradição secreta (Hi-Den) se faz menção, para definir as diferentes etapas de evolução espiritual, ao simbolismo do stupa (gorín) japonês, constituído por cinco elementos e por cinco figuras geométricas cada uma delas constituindo um meio de identificação entre a forma e sua essência ou entre o homem e a Divindade Universal. Este sistema está ainda vigente em nossos dias para instruir aqueles que se preparam para ensinar.

O ESTUDANTE
Até o primeiro Dan, aquele que treina em um dojô não é mais do que um simples estudante, um aluno ainda pouco integrado na vida do grupo do dojô. É durante esse período que se elimina a maior parte dos alunos para os quais o Budô não é a via a seguir. Estes alunos são provados e seu caráter fortalecido. É sobre eles que recai a tarefa de limpar o tatame e o dojô. Durante o noviciado, sua moralidade é submetida a numerosas provas. O Instrutor ou Sensei requer de seus discípulos a igualdade de humor, o silencio, a coragem, a perseverança, a amabilidade, a paciência. É uma etapa durante a qual o corpo é domado e depois moldado. Se aprende a caminhar, a equilibrar-se, a respirar, até chegar a obter uma saúde forte e dinâmica. Até aqui, somente as bases da arte escolhida são ensinadas através da diversidade das técnicas (waza). Como para todo debutante, a percepção (chamada sen) é lenta e baseada unicamente sobre a percepção objetiva dos cinco sentidos, as defesas são realizadas com a força muscular (chikara) e ainda não têm nenhuma coordenação (Iki-Ai)

DISCÍPULO
No segundo Dan, o discípulo já não é um noviço, posto que voluntariamente aceitou as regras de disciplina e o ensinamento, algumas vezes severos, do Sensei. Aquilo que este ordenar será cumprido por seu discípulo sem que uma palavra de réplica saia de seus lábios. Tal é a lei do Budô, já que uma confiança absoluta deve estabelecer-se entre o Sensei e seu discípulo. O discípulo é elevado do estado bruto da terra até o elemento da emoção, onde o Sensei insistirá a fim de que seja firme diante do medo, da agressividade, da crítica, da timidez e, em definitivo, diante dos sentimentos perturbadores que assaltam ao praticante durante os combates livres (jyu-kumite e jyu-randori).

Quando chegou a purificar (o controlar) suas diferentes reações emocionais, o discípulo recebe uma atenção particular por parte do Sensei. Seu sentido de combate se aguça e suas defesas, esquivas, projeções, etc., são proporcionais aos ataques. Por outro lado, é capaz de se fazer uno com o adversário, partindo ao mesmo tempo que ele, Nesse Grau e para desenvolver seu poder dinâmico (kime) e sua intuição, a prática da meditação (zazen) é indispensável.

DISCÍPULO ACEITO
No terceiro Dan, o discípulo é reconhecido e qualificado para que um dia possa chegar a ser instrutor. Ao chegar nesse grau se converte em discípulo aceito pelo Sensei e lhe são confiadas instruções pessoais. Algumas vezes trabalha com o Sensei para demonstrar aos outros alunos certos princípios técnicos. Pode também supervisionar o treinamento dos estudantes menos avançados. Se beneficia de certos privilégios devidos exclusivamente a sua perseverança e a suas qualidades morais. Nos ensinamentos do antigo Budô está escrito que o terceiro Dan não é adquirido senão através de dez longos anos de duro trabalho. Antigamente, um discípulo devia ter um domínio perfeito de sua mente (o elemento fogo) durante a ação.

RENSHI
Este titulo compreende três graus: quarto, quinto e sexto Dan. Renshi (literalmente instrutor) é uma etapa capital, posto que a partir desse momento o praticante está autorizado a ter seu próprio dojô. Antes de ter adquirido o grau de Renshi em uma disciplina, um professor é incompetente e perigoso. É também a partir deste grau quando um ensinamento lhe é conferido pelo Sensei, concernente aos pontos vitais e a estrutura nervosa do corpo humano.

RENSHI 4º DAN
O grau de Renshi faz de um bom praticante um expert. É aqui onde desgraçadamente (freqüentemente ocorre no Ocidente), por interesse ou por orgulho, muitos se fazem passar por mestres, seja por terem adquirido alguns títulos em campeonatos, seja porque estejam em regiões pouco informadas sobre o verdadeiro Budô. Alguns Renshi se inclinam para o ensinamento e outros para a competição. Sem dúvida, tanto uns como outros devem treinar sobre outros níveis de consciência e desenvolver neles KOKORO, um estado de espírito perto da Facilidade, onde toda ação é percebida na unidade da essência universal. É a partir deste grau e unicamente se são dignos que lhes podem ser revelados em profundidade certos ritos ou técnicas espirituais (himitsu) com vistas a uma integração mais profunda entre a alma e a personalidade. Sem este esforço de integração a personalidade pode degenerar pelo desejo de poder, o que ocorreu com numerosos experts japoneses que chegaram a Europa.

RENSHI 5º DAN
Tal expert possui (ou deveria possuir) o domínio de sua personalidade constituída por um corpo físico por um corpo emocional e por um corpo mental. Quando esta triplicidade é purificada e alinhada uma fusão pode ser realizada com os planos de consciência espirituais, a fim de acender a esse estado que os japoneses chamam Iro-kokoro. Alcançando este objetivo, o Renshi percebe o fim verdadeiro de sua vida e o plano subjacente na vida universal. Sua vontade própria é então substituída pela vontade divina, onde a sabedoria universal ordena e dirige, pela lei e o Verbo, a criação inteira. Esta entrada na corrente ascensional lhe permite experimentar certas experiências espirituais como aquelas realizadas pelo Mestre Morihei Ueschiba, que lhe revelaram a via do Aikido.


RENSHI 6º DAN
Há muito pouco a dizer sobre este grau, senão que este aumenta sem cessar o domínio da arte pelo domínio de si mesmo, e muito numerosos são aqueles que deveriam sentir vergonha de semelhante comportamento.

KYOSHI
Este título é concedido aos sétimos e oitavos dans. Não é nem técnico nem honorífico, mas corresponde a um grau de perfeição interior. Raros são aqueles que alcançam estes graus e somente um autêntico Mestre pode discerni-los, é dizer, um Mestre com visão interior que ultrapassou o mundo das aparências e passou por todas as etapas anteriores.

No estado de kyoshi não existe nenhum espírito de vingança, de luta, de cobiça, de crítica, de agressividade, de mentira, de preguiça nem de debilidade. O bom grão, por inumeráveis sofrimentos e duros esforços, é separado da discórdia. Tal personagem não é utopista, idealista ou extremista, ao contrário, é profundamente realista, percebe os conflitos humanos e decidiu remediá-los. Mesmo assim está muito longe de ser um sábio, o Kyoshi cavou um abismo entre ele e o mortal comum. Tais seres existem e trazem amor, conhecimento e luz para a humanidade. Um plano de experiência interior. É por isso que um Kyoshi não falará jamais sobre si mesmo e não fará jamais ostentação de sua maestria ou de seus títulos, se os tem, já que numerosos são os que chegados a este grau, desdenharam os dans, demonstrando assim sua verdadeira identidade espiritual.

SHIHAN
Shihan é um título honorífico dado aos Mestres por seus alunos em sinal de respeito, já que jamais um verdadeiro Mestre se atreveria a tal honra. O shihan não pode ser etiquetado. Algumas vezes silencioso, outras ruidoso, doce hoje, duro amanhã, se adapta com justiça a todas as circunstancias e trata em perfeita harmonia com toda manifestação vivente. O shihan pode ser comparado ao guru hindu, ao qual os discípulos confiam suas vidas incondicionalmente. O shihan, sendo um homem divino, se aproxima do estado puro da divindade. Seu conhecimento não é intelectual, mas irradiado de seu eu espiritual superior. O shihan domina a vida temporal pela espiritual, assim é dado a estes seres conhecer os pensamentos de outros, curar por imposição ou por oração e dominar todo obstáculo destruidor.

O Mestre ao qual nos referimos já não é humano mas divino. E aquele que a tradição Oriental chama um Mestre de Sabedoria ou Boddhisatva. Tais seres nos são bem conhecidos ao longo da história: Confúcio, Sankharacharya, Apolonio de Tiana, Platão, Pitágoras, Nagarjuna, Kukai, Buddha, Krishna, Jesus...

Não amar o magistério nem a matéria dos mortais, e aparentar ignorância sendo iluminado, este é o segredo de toda maravilha.
Lao T´sé

O Mestre somente é mestre porque, esquecendo de si mesmo, transmitiu seu saber aos seus alunos e através deles a todos os que venham mais tarde. O discípulo somente é discípulo porque se entrega totalmente ao seu mestre.
Morihei Ueshiba


Extrato do livro Budô Secreto, Capítulo: SENSEI: MESTRE
Editorial Obelisco.

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