quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Será o Kata um método eficaz para o treino de defesa pessoal?

André Bertel

Este artigo foi escrito por André Bertel, 6º Dan de karate Shotokan,
seguidor e discípulo do falecido Mestre Tetsuhiko Asai. André Bertel
possui muitos outros artigos, que poderão encontrar no seu blogue em
www.andrebertel.blogspot.com.
Escrito a: 26 de Julho de 2007
Traduzido por: Rui Silva

Oyo-jutsu: Será o Kata um método eficaz para o treino de
defesa pessoal?
Perspectivas acerca do valor dos kata
Existem muitas e diferentes perspectivas acerca do valor do kata no que diz respeito à
aquisição de técnicas de defesa pessoal eficazes e de habilidades de combate em geral. Alguns
reclamam que o kata é o coração do Karate, porém outros vêem o kata como uma completa
perda de tempo de treino. Na minha opinião, e pelo que ela vale, ambas as perspectivas têm o
seu valor e dependem completamente daquilo a que designamos por kata, e ainda mais
importante, da forma como é executado o treino físico do kata.
Eu não vou aqui explanar o estudo académico do kata, pois eu acredito que este só deve existir
como suporte para o treino físico, tal como para reforçar o treino de exercícios de cada um ou
para melhorar a metodologia de treino em benefício de outros.
Não nos deixemos iludir! Será mesmo o kata essencial para saber como
lutar?
Se formos inteiramente honestos, independentemente do quanto “tradicionais” somos, tornase
claro que o kata não é um pré-requisito para a luta de rua ou para eficácia na defesa. Além
de ser de senso comum, está indiscutivelmente comprovado pelo facto de existirem inúmeros
artistas marciais que não incluem o treino do kata nos seus respectivos regimes de treino.
Então, se os kata não são uma obrigação para desenvolver o poder de combate, porque é que
os vários estilos se importam com eles? E mais importante ainda, porque é que em muitos
casos, defendem que os kata são a parte principal do treino? Para compreender
profundamente e explorar estas questões, torna-se necessário compreender primeiro porque
é que os kata foram inicialmente desenvolvidos.
A história do kata
Obviamente que os mestres antigos pensaram que os kata teriam um objectivo bastante útil,
caso contrário, eles nunca os teriam concebido (para não falar na quantidade de kata que
foram criados). É dito que os especialistas em artes marciais inventaram os vários kata para
guardar e sintetizar as suas técnicas de combate chave, os seus princípios e tácticas. Eles
fizeram isto para que os seus conhecimentos marciais pudessem ser transmitidos às futuras gerações. O meu Sensei, Tetsuhiko Asai, defendia que “cada kata, é de facto um completo
sistema de artes marciais em si próprio”como por exemplo, o estilo Nijushiho ou o estilo
Sochin. Ele também defendia que, originalmente, os kata eram uma mistura de vários métodos
de combate não limitados pela definição moderna daquilo que é o Karate.
Esta definição moderna tem sido dramaticamente influenciada pelo Karate desportivo e
também na tentativa de distinguir o Karate das outras artes marciais, como o jujutsu ou o
muay thai, para não referir, estabelecer o Karate socialmente como uma “arte limpa, de socos
e pontapés entre cavalheiros”. Mas claro que, na realidade, combater é combater,
independentemente da arte marcial, estilo ou outra coisa qualquer. A história dos vários kata
ecléticos verifica isto, e ao fazer isso, mostra-nos como inteligentemente a “combinação de
treinos” não é certamente um conceito moderno.
Será o kata um meio eficaz para preservar as técnicas?
Na minha opinião, independentemente das variações entre estilos, e seguindo as preferências
de mestres como Masatoshi Nakayama, Gichin Funakoshi e Gigo Funakoshi, é inegável que o
kata tenha sido um meio de sucesso para preservar os respectivos conhecimentos (dos
expoentes bem conhecidos já falecidos). Gerações posteriores, nós karatecas modernos, ainda
mantemos registos destas técnicas altamente aperfeiçoadas e estratégias encriptadas nos
nossos kata. Do mesmo modo, o Sensei Asai, que faleceu recentamente, deixou-nos as suas
técnicas e conceitos especiais nos kata que ele próprio desenhou. Certamente que existirão
menos probabilidades do seu karate ser esquecido devido à existência destes kata, então aqui
temos um exemplo moderno!
Vamos ganhar alguns troféus de plástico para ficar bem!
Infelizmente, às vezes, e como resultado do Karate desportivo, o kata tem deixado de ser visto
como um registo de métodos de combate letais para uma luta real de defesa pessoal. Em vez
disso, é agora “geralmente considerado” como uma realização atlética ou estética, que pouca
ou nenhuma relação tem com o combate corpo a corpo. Seja qual for a forma como o kata é
percepcionado no ano 2007, as pessoas que desejem estudar o Karate como arte marcial,
podem ainda fazê-lo através do kata. Isto acontece pois o kata fornece uma conexão tangível,
de volta ao Karate como arte de combate, em vez de ser um desporto (ou mesmo ser
estritamente definido/rotulado como “Karate”). É aqui que podemos aceder não apenas às
técnicas comuns de Karate, mas também a um vasto conteúdo de ataques às cavidades,
cabeçadas, rasgo de olhos, manobras de luta no solo, estrangulamentos, deslocamento de
articulações, quebras de ossos, esquivas, projecções, e todos os outros elementos que fazem
dele um sistema de defesa pessoal “completo”.
Então como utilizar os kata para o treino marcial?
Para praticar Karate como uma arte marcial é necessário estudar activamente o kata, ao
contrário de apenas executá-lo como uma rotina de técnicas específicas. A minha crença
pessoal é a de que sem o estudo aprofundado da sua aplicação, a prática do kata perde todo o
sentido. No caso de alguém querer aprender Karate como defesa pessoal e que não trabalhe o
“kata com parceiro” (criando cenários reais) esse alguém irá estar a perder o seu tempo. E ao
praticar o kata simplesmente para este ficar bonito, não estamos a fazer mais do que Karate
desportivo, o que não oferece mais protecção do que a rotina de uma ginástica de solo (embora, a ginástica nos dê equilíbrio, agilidade, etc., que também é uma justificação prática
para o kata dentro do circulo do Karate tradicional). Não praticar aplicações eficazes de luta de
rua no kata, com um ou mais parceiros não basta para uma autêntica arte marcial.
O kata é o programa original
Devemos manter sempre em mente que o kata é o registo de estilos de combate que se
combinaram para formar aquilo a que hoje designamos de Karate. Então de facto, o kata é o
“programa original”. Está bem documentado que os mestres antigos apenas treinavam entre
um a três kata. Certamente que, se isto fosse apenas no desempenho preciso dos movimentos
exteriores, eles teriam treinado muitos mais exercícios de forma. Nós temos também que nos
questionar, porque é que neste caso, os kata individuais eram “sistemas de combate
completos”. Encaremos a realidade, sem o kata nós não teríamos um programa com o qual
trabalhar. Tudo o que os mestres do passado descobriram, inventaram, aprenderam,
utilizaram e ensinaram ter-se-ia perdido. O kata é o programa holístico do Karate e, para se
conseguir obter um sistema que não seja largamente inadequado para a defesa pessoal, temos
de pesquisar fisicamente esse sistema.
Os karatecas ignoram as aulas de kata
As técnicas e as estratégias do Karate de competição são inegavelmente inadequadas para
utilização prática fora da área desportiva confinada. Infelizmente, muitos karatecas ignoram as
aulas de kata e, portanto, inadvertidamente praticam o Karate como uma arte de combate
parcial. O que mais me alarma são os instrutores, que treinam e ensinam Karate desta forma
incompleta, mas ao mesmo tempo gabam-se de que o seu dojo ensina técnicas de defesa
pessoal eficazes. Pior ainda é que eles praticam bunkai semelhantes aos apresentados na
colecção de livros “O melhor do Karate” do Sensei Nakayama. Para dizer a verdade, eles às
vezes até têm “aplicações inovadoras”, mas estas são altamente ineficazes em combate real.
Mas eu calculo que é onde eles podem sempre utilizar a sua “grande desculpa do Karate”,
“Não me é permitido utilizar o meu Karate para combater”. Infelizmente, os tradicionalistas
são muitas vezes piores quando se trata de treino real, na medida em que passam o tempo
preocupados em mostrar-se pomposos relativamente à sua filiação Japonesa, graduações de
Dan e outras coisas semelhantes. Na minha opinião, qualquer aula de Karate que não inclua
uma parte de defesa pessoal prática é inútil. Não existe necessidade de sair para fora dos
conteúdos da Shotokan, mas simplesmente entrar neles e utilizar as lições que se encontram
encriptadas nos kata.
Apenas um comentário a isto: De acordo com comentários do Sensei Asai, eu acredito que as secções de
bunkai, nos fantásticos livros “O melhor do Karate” do Sensei Nakayama, serviram para “analisar” o
respectivo kihon no kata. Não foram a aplicação técnica ensinada no Hombu Dojo da JKA.
Terão os kata algum valor num regime de treino para defesa pessoal?
Existem essencialmente dois tipos de kata, kata invidual, como foi mencionado acima, e o kata
executado com um ou mais parceiros. No Karate Shotokan, a maioria dos praticantes associa o
termo kata ao treino individual de kata. O kata com parceiro é agora vulgarmente conhecido
como “kata-equipa”. É largamente aceite que os kata-equipa são métodos de treino válidos
para o desenvolvimento de habilidades de combate práticas. Mas o treino do kata individual é argumentado como sendo mais impiedoso no que diz respeito ao desenvolvimento do talento
para o combate. Parece fazer mais sentido praticar as técnicas com um parceiro ao contrário
de as treinar sozinho numa aparente “dança” rotineira. No que diz respeito ao treino das artes
marciais, o treino com parceiro, incluindo os combates, é inquestionavelmente mais eficaz do
que o treino do kata individualmente. Então porquê chatearmo-nos a praticar o kata sozinhos?
Aqui estão os meus cinco principais motivos para o treino do kata individual: Primeiro, sem o
treino do kata individual não teríamos um programa e portanto não teríamos acesso aos
conhecimentos aperfeiçoados que os nossos expoentes do passado desenvolveram. Segundo,
o kata individual é útil quando não temos um parceiro com quem treinar (podemos fazer o
kata em qualquer lado e a qualquer hora). Terceiro, podemos executar “todas as técnicas” do
kata com o máximo de velocidade (snap), mesmo as técnicas e manobras mais letais podem
ser realizadas com vigor (sem necessidade de magoar seriamente os nossos colegas de treino!
Podemos atingir o nível máximo no kata individual). Quarto, o kata individual torna o treino
individual mais motivador (é o que eu chamo o factor diversão). E finalmente, o kata
condiciona o corpo enquanto são analisados os princípios de combate (programa original) no
respectivo kata que está a ser treinado.
O kata individual é inferior, mas ainda assim extremamente valioso
Essencialmente, quando se treina Karate tradicional com propósitos marciais (combate/defesa
pessoal), a pratica do kata individual complementa o regime de treino global. O kata individual
irá reforçar bastante a aplicação das técnicas com um parceiro, irá colmatar o fosso existente
entre o kihon, o kata e o kumite, e certamente desenvolver habilidades para nos defendermos.
Nos dias de hoje o kata individual é também criticado como sendo uma alternativa ineficaz ao
treino de técnicas com um parceiro, e actualmente, como referi acima, estas críticas são
válidas. Gostemos ou não, o kata individual é uma “alternativa inferior”. No entanto, aqueles
que tecem estas críticas e tentam evitar o treino individual do kata treinando sempre com
parceiro, é porque não compreendem o papel do kata na rotina dos treinos. É também a
minha crença de que sem o treino individual do kata, aquilo que praticamos perde a sua
ligação histórica com o Karate. Portanto, se seguimos este caminho, não podemos
honestamente chamar Karate ao que fazemos. Embora, de uma perspectiva puramente
marcial, isto seja irrelevante.
Conclusão
Com este artigo eu não estou a sugerir que os Karatecas devam negligenciar o seu kihon em
favor da aplicação, devendo sempre co-existir as duas opções. Conforme dita o senso comum,
sem um kihon sólido e sem um desenvolvimento contínuo das técnicas do kihon (kihon-waza),
nada se consegue. Aperfeiçoar cada acção básica torna-se literalmente uma tarefa sem fim.
Os karatecas experientes não devem estagnar aperfeiçoando simplesmente a forma exterior.
O que não está mal nos níveis kyu mais baixos, mas quando se chega ao níveis de kyu mais
elevados, estes deverão possuir um nível de habilidades mais vasto para a sua protecção
pessoal. Eu gostaria de concluir dizendo que os kata Shotokan da JKA, ou seja, as suas
aplicações, fazem deste estilo uma arte marcial completa. O seu estudo e, mais importante
ainda, a sua prática como aplicação permitem preencher um vasto leque de lacunas
encontrado nos programas comuns da Shotokan.

Retirado do blogue: Andre Bertel’s Karate-Do em www.andrebertel.blogspot.com
Traduzido por: Rui Silva

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