sexta-feira, 25 de setembro de 2009

KARATE-DO - Reflexões

KARATE-DO


1. Dojo versus Academia

Na atualidade, quando um estudante de Karate-dô se dispõe a ir treinar diz:

– Vou à “academia”; mas esta palavra “academia” é entendida de forma diferente se diz: – Vou ao “dojo”, posto que, em japonês, “dojo” é o lugar onde se realiza a Via, isto é, onde uma pessoa estuda a técnica de uma arte, ao mesmo tempo que forja seu caráter, controla e canaliza suas emoções e instintos e evolui como ser humano. Tudo isso utilizando como instrumento a técnica da arte que tenha sido escolhida. Entretanto, quando uma pessoa diz:

– Vou à “academia”, geralmente isso implica atividades ou atitudes lúdicas, recreativas ou hedonistas e, no melhor dos casos, buscam uma melhora da saúde ou da forma física. Portanto, uma vez meditado sobre estes dois termos , o estudante de Karate-dô, ou outra arte, poderá indagar-se por qual deles usar

Para um “budo-ka” ou artista marcial a escolha será clara, posto que, qualquer benefício realmente enriquecedor que possa ser obtido por meio das atividades de “academia, pode ser obtido amplamente através da prática de uma arte como o Karate-dô. Não obstante, o caminho ao invés não é possível, já que, qualquer arte do Budo comporta benefícios e entra em campos nos quais o desporto não tem cabida.

2. A atitude do estudante de Karatê-dô

Quando um estudante de Karate-dô chega ao dojo, deverá ter esclarecido que ali não só vai exercitar-se fisicamente, pois no treinamento, além do corpo deve incluir a mente e o espírito. Estes três fatores são indissociáveis e devem ser treinados de uma maneira integral; para isso é necessária a total atenção e concentração nos nossos atos; máxime quando deles pode depender a nossa vida ou a integridade física. É o que os mestres japoneses denominam o “Shingitai”.
O shingitai refere-se às três qualidades que devem manifestar os dans e kyus: shin (o espírito, o caráter), gi (técnica na arte praticada) tai (elementos corporais). Outra interpretação seria: shin (céu), gi (terra) e tai (homem); shingitai, reunir os três elementos. Esclarecimento: quando realizamos um gedan-barai é evidente que é uma ação física, mas, o realmente importante não é a ação muscular, mas sim a atitude e a intenção com a qual executamos a técnica, já que esta só será efetiva se realmente está envolvido todo o nosso ser. Como pode ser isto possível? Pensemos como é possível desenvolver técnicas eficazes, se durante a prática: nos distraímos e falamos com os colegas; se pensamos e ocupamos nossa mente em coisas alheias à prática; se esperamos com ansiedade as pausas ou descansos e além disso as desperdiçamos falando; se nos preocupamos por quanto falta para finalizar; se tememos que nos calhe um parceiro que trabalha muito forte; se pensamos -exteriorizando-o ou não, “uffa, outra vez este kata…”; se duvidamos da metodologia do Sensei (aquele que viveu) ou mestre e, em resumo, qualquer tipo de pensamento ou ação que nos afasta e distrai do sentido original da prática do budo. Por conseguinte, os estudantes deveriam adotar as seguintes normas:

a) Evitar as distrações e interrupções sem motivo justificado;
b) Realizar rapidamente e sem supérfluos comentários as mudanças de parceiro, para não romper a harmonia e o fluxo energético;
c) Retirar-se para um lado do tatame no caso de se sentir mal; voltando ao mesmo quando se sentir melhor;
d) Esperar as pausas (yame) ou os descansos (naore) para perguntar ao Sensei as dúvidas;
e) Pedir a autorização do Sensei para treinar e para sair da aula.

O estudante sincero em todo momento praticará com os cinco sentidos em cada gesto, em cada ação ou em cada uma das técnicas que realizar; com a idéia de ser esta a última vez que pratica a arte e querendo saborear cada momento, cada instante, cada gesto. Da mesma maneira, nos exercícios com parceiro ou com colegas dará com entusiasmo o melhor de si mesmo, com entrega e decisão em suas defesas e ataques; procurando a harmonia e o progresso mútuo. Para isso, um karate-ka ou praticante do budo deverá evitar as seguintes condutas ou atitudes. Praticar sem motivação e sem tentar superar-se dia–a-dia. Falar, distrair-se ou não estar atento durante a prática. Correr o risco de se lesionar ou magoar os colegas por satisfazer seu ego, por ira, raiva, temor, etc. Que o grau ou os êxitos desportivos não lhe subam à cabeça. Sentir-se superior ou mais qualificado que outros colegas. Fazer-se notar, presumir ou alardear de proezas, etc. Tratar de impor critérios pessoais, até sabendo que não são os do Sensei. Questionar ou discutir os ensinamentos do Sensei ou alardear disso publicamente. Subestimar os outros para ser ele superior. Criar inimizade entre os colegas ou entre as pessoas. Falar mal ou criticar outras artes do budo ou seus praticantes. Questionar os conhecimentos ou a destreza do Sensei, do Sempai ou de outros colegas. Dar opinião ou criticar acerca dos graus ou cintos concedidos pelo Sensei aos outros estudantes. Abusar da confiança do Sensei ou dos outros colegas. Ser violento, egoísta, orgulhoso, vaidoso ou mal intencionado.

Em resumo, seria muito de desejar que os estudantes se entregassem ao máximo nas aulas, como se sua vida disso dependesse; mas sempre com o domínio físico e emocional que dá o bom senso. Além disso, em todo momento dará atenção a manter à raia as debilidades, defeitos ou tentações que quotidianamente nos espreitam, esperando ver uma abertura no nosso kamae
(guarda), metaforicamente falando. Outro aspecto, e o mais importante de todos segundo o Mestre Gichin Funakoshi: é que o Karate-dô pode e deve ser praticado durante todo o dia e isto é possível sendo plenamente conscientes de nossos atos em todo momento. Por exemplo: treinando nossa respiração; com a postura corporal correta; com a nossa atitude com relação aos outros; com a atenção ao meio e, em síntese, enfrentando os problemas quotidianos com espírito de Karate-dô.

3. “Reigisaho”: O Protocolo Ou Cerimonial Do Budô

As vezes, devido ao trato do dia-a-dia, a amizade mal entendida, a um excesso de confiança; ou simplesmente por desconhecimento, o Reigisaho ou normas de conduta no dojo é mal interpretado e pior utilizado. São exemplos claros disto: não saber comportar-se num tatame, relaxar os modais, não guardar a compostura adequada, falta de pontualidade na aula e falta de seriedade e responsabilidade na prática. Estas más atitudes degeneram numa falta de respeito e de consideração com o Sensei, com os colegas e consigo mesmo. Sendo situações pouco desejáveis que podem derivar em negligência, informalidade e adulteração dos valores do budo. Por isso, os alunos devem entender que, ainda que por vezes o Sensei não lhes chame a atenção direta ou explicitamente, isto não quer dizer que o comportamento incorreto do estudante passe sem ser visto ou não interesse ao Sensei. Por isso, os Sempai ou estudantes mais avançados devem guiar, aconselhar e corrigir os Kohai (principiantes) para que estes não se confundam na atitude. Além disso, deve ensinar-se aos neófitos que após muitos anos de prática é normal que os mais veteranos obtenham pequenos benefícios ou licenças para com o Sensei, ainda que isto supõe também um grande compromisso com ele e obrigações com a prática. A forma correta de dirigir-se a um Sensei é inclinar-se respeitosamente ao cumprimentar (rei), o qual ele nos retribuirá solicitamente. Quando ele pergunta se percebemos uma explicação, para responder afirmativamente pronunciamos o vocábulo OSS, o qual serve para: afirmar, saudar, animar, motivar, como agradecimento, etc. Outro componente importante no reigisaho ou cerimonial do budo, são os cumprimentos (rei); os quais, longe de ser normas de submissão ou submetimento dos estudantes menos avançados, são umas excelentes normas de cortesia, respeito ou agradecimento, e também agem incentivando e favorecendo a atenção e a atitude adequada. Quando um estudante chega ao limiar da entrada do dojo (tatame) e a aula ainda não começou, ou seja, sendo pontual, deve cumprimentar na direção do kamiza, lugar de honra destinado às fotografias dos fundadores da arte ou do estilo, a símbolos e bandeiras, etc. Esta saudação é uma demonstração de agradecimento aos fundadores da arte e por sua vez lembra-nos a humildade e simplicidade do estudante. Se a aula já deu começo, situamo-nos num lugar onde o Sensei possa ver-nos, sentados em seiza ou em pé, se é hábito, e esperamos sua autorização para depois realizar o cumprimento ao kamiza e ao Sensei. Após isto, situamo-nos no lugar do dojo em que menos interrompemos e procedemos a aquecer em silêncio e sem interferir na aula. Uma vez finalizado o aquecimento, dirigimo-nos ao Sensei e integramo-nos na aula. Existem outros aspectos tais como a hierarquia: “Sensei-Sempai-Kohai”.
Sempai vem a significar “irmão mais velho no Karate-dô” e sua missão é colaborar com o Sensei, ajudando e aconselhando os mais principiantes na prática da arte.
Kohai é indicativo dos alunos principiantes ou de menor grau. Os Sempai são de maior hierarquia conforme sua antigüidade e/ou grau, apesar de pode dar-se o caso de que um Sempai deixe de fazer exames de “dan” por
causas alheias à sua vontade ou bem por motivos justificados. Neste caso, se o Sempai continua com uma prática sincera e exigente, terá mais categoria que outros estudantes com menos tempo de prática que tenham sido promovidos mais rapidamente e a mesma que seus contemporâneos ou colegas de promoção. De qualquer maneira, este é um assunto delicado e em caso de dúvidas fica a critério do Sensei. A disposição nos cumprimentos ou cerimonial: ao começo e no final da aula o Sensei se situa dando de costas para o kamiza, o Sempai de maior hierarquia de frente para o kamiza e à esquerda do Sensei, os outros estudantes a seguir ao Sempai, situados de maior a menor categoria. O Sempai de maior hierarquia é o encarregado de dirigir os cumprimentos ou cerimonial, de velar pela organização das filas e da disciplina geral. Em ausência do “Sempai maior” seu lugar será ocupado pelo seguinte na hierarquia. Frente ao Kamiza -no lado oposto- encontra-se o Shimoza, lugar reservado para os estudantes, de onde estes cumprimentam o Sensei. À esquerda do Kamiza encontra-se o Shimoseki ou lado dos alunos de menor categoria, e à direita o Joseki, destinado aos alunos de mais alto grau. Ou seja, para cumprimentar, os alunos situam-se de maior a menor grau, desde o Joseki até o Shimoseki. Enquanto à atitude nos cumprimentos (rei): O cumprimento deve ser sincero, pois do contrário seria melhor não o fazer. Ainda que sincero e humilde, o cumprimento não deve estar desprovido da máxima atenção, já que no budo o nível de alerta nunca desce. Também é um bom hábito que no momento de finalizar um exercício com um colega/s e ao mesmo tempo que realizamos o cumprimento, agradeçamos verbalmente. Outro aspecto importante a destacar, é que se um Sempai se encontra dando a aula por delegação do Sensei e em ausência deste; no suposto que um Sempai de maior hierarquia se integre na aula, fá-lo-à como um praticante a mais, ou então situa-se num lado da sala, praticando sem interferir na aula. Outra questão é que o Sempai ou professor em funções considere mais apropriado oferecer ao Sempai de maior hierarquia a direção da aula, bem por própria decisão ou por connhecimento das preferências do Sensei. “Mas esta não é uma regra fixa ou uma obrigação”.

4. Termos e Vozes básicas no Karate-do.

Vozes utilizadas nos cumprimentos ou cerimonial de Karate-dô:
a) Mokuso: Concentração, meditação;
b) Mokuso Yame: Fim da concentração.
c) Oss: Expressão fonética, formada por dois caracteres. O primeiro “osu” significa literalmente “empurrar” ou “controlar”. O segundo carácter “shinobu” tem o significado literal de "paciência, agüentar, sofrer";
d) Otagai ni rei: Cumprimento mútuo (entre os alunos);
e) Ritsu rei: Cumprimento em pé;
f) Sensei ni rei: Cumprimento ao Mestre;
g) Sempai ni rei: Cumprimento ao/s Sempai/s;
h) Somen ni rei: Cumprimento em frente (kamiza);
i) Tate: Pôr-se em pé;
j) Zarei: Cumprimento desde Seiza (sentado sobre os calcanhares).

Termos mais usuais na prática de Karate-dô:
a) Bunkai: Aplicação das técnicas e movimentos de um Kata.;
b) Hajime: Começar;
c) Kamae: Atitude e postura de alerta ou guarda;
d) Kata: Forma, conjunto de técnicas codificadas;
e) Kihon: Fundamentos técnicos.
f) Kihon-kumite: Exercícios de combate, já estabelecidos entre dois karate-kas;
g) Kumite: Encontro, combate;
h) Mawate: Rotação, mudança de direção;
i) Naore: Recuperar a posição original, pausa ou descanso;
j) Yame: Parar;
k) Yoi: Prontos, preparados;
l) Zanshin: Vigilância; é a ideia de manter um estado de máxima atenção até que realmente pára a ação ou não existe perigo.

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